Em uma tarde fria de agosto de 1983, em Curitiba – PR participei como estudante, de um encontro promovido pelo extinto movimento Sete Quedas Viverá, para debater o uso indiscriminado dos agrotóxicos. A palestra do engenheiro agrônomo Reinaldo Skalisz, da AMAR, revelou dados alarmantes sobre mortes de agricultores intoxicados. A indignação foi tamanha que eu e colegas do curso de Biologia nos inscrevemos representando uma entidade que ainda não existia. Assim nasceu o Movimento Ecológico Mater Natura, que se transformou em uma importante Organização da Sociedade Civil do Paraná.
Mais de quatro décadas depois, a preocupação permanece. Entre 2016 e 2020, milhares de novos agrotóxicos foram registrados no Brasil. Somente em 2025, o MAPA aprovou mais 550 registros, elevando para mais de 3.000, o número estimado de marcas comerciais autorizadas no país.
Além dos produtos legalizados, cresce o mercado ilegal. Estima-se que um em cada quatro agrotóxicos utilizados tenha origem ilícita, movimentando cerca de R$ 15 bilhões.
Investigações da Receita Federal apontam a atuação do crime organizado no roubo, contrabando, falsificação de embalagens, adulteração e fraude fiscal envolvendo esses produtos. Em 2025, as apreensões em rodovias federais chegaram a 127 toneladas.
No Congresso Nacional, a influência da Frente Parlamentar da Agropecuária contribuiu para a aprovação da Lei nº 14.785/2023, conhecida como “Pacote do Veneno”, além de iniciativas para reduzir o poder de veto técnico do Ibama e da Anvisa sobre registros de agrotóxicos.
Segundo informações amplamente divulgadas pela imprensa, cerca de um terço dos agrotóxicos comercializados no Brasil contém ingredientes ativos proibidos na União Europeia. Entre eles estão substâncias associadas a riscos de câncer, malformações fetais, contaminação ambiental e outros graves impactos à saúde, como Atrazina, Acefato, Clorotalonil, Clorpirifós, Tiametoxam e Mancozebe.
Basta querer pesquisar as consequências de cada venenos para se chocar.
Me recordo de uma frase de efeito que usávamos, quando estudantes, que ainda é tão atual: “Ei, você aí parado. Está sendo envenenado”.
A luta por uma melhor qualidade de vida passa pelo conhecimento dos riscos associados ao uso indiscriminado desses produtos e pela cobrança de políticas públicas mais rigorosas.
É razoável adotar o princípio da reciprocidade: se determinados agrotóxicos são proibidos em seus países de origem por representarem riscos à saúde e ao meio ambiente, não deveriam ser utilizados no Brasil.
Enquanto o “lobby” desse setor permanece forte, famílias, rios, mares e biodiversidade continuam expostos à contaminação. O debate precisa ser ampliado e transformado em (re)ação.
Roberto Xavier de Lima – Diretor de Planejamento e Inovação da Neotrópica Sustentabilidade Ambiental, Mestre em Conservação da Natureza, Biólogo e Escritor.