Estou lendo o livro Casa Verde, de Noel Nascimento, sobre a Guerra do Contestado, e me deparei com uma frase atual dita há mais de cem anos pelo monge messiânico João Maria:
“Sou um filho de Deus. Faço penitência e dou aviso ao mundo. Tempos virão em que os homens vão se destruir como feras. Nações contra nações, irmãos contra irmãos. Inveja roubo e morte em toda a parte. Os filhos da mata precisam ficar na Casa Verde, de onde será ouvido o troar do canhão na grande guerra universal.”
O religioso reunia descontentes e marginalizados, que viviam dentro das Florestas com Araucária. A “Casa Verde”. Via os pinheiros como “vultos penitentes de braços estirados”. Após sua morte, o movimento passou a ser liderado pelo monge guerreiro – José Maria.
Durante anos, Brasil e Argentina disputaram essas terras. A questão foi submetida à mediação do presidente americano Cleveland, que aceitou os argumentos do Barão do Rio Branco favoráveis ao Brasil, incorporando cerca de 30 mil km² ao território nacional. Ainda assim, os limites eram contestados entre Paraná (PR) e Santa Catarina (SC), o que favorecia o abandono da população local.
A Guerra do Contestado, ocorrida entre 1912 e 1916, foi um conflito sociorreligioso entre sertanejos pobres e o governo brasileiro. Os revoltosos ficaram conhecidos como “pelados”, – por rasparem a cabeça em devoção ao monge, enquanto os soldados governistas eram chamados de “peludos”, – por suas barbas e uniformes. A revolta que deixou mais de 10 mil mortos foi desencadeada pela expulsão de 20 mil moradores — descendentes de indígenas, desertores e refugiados da Revolução Farroupilha, pela empresa Brazil Railway Company, responsável pela construção daquele trecho da ferrovia São Paulo–Rio Grande. Em troca, a empresa Southern Brazil Lumber & Colonization Company, recebeu o direito de explorar madeiras em faixas de até 10 km de cada lado da linha férrea, devastando pinheirais e desalojando populações.
Após a obra, quase 8 mil trabalhadores foram demitidos, agravando a crise social. Em 1911, a companhia iniciou a colonização das terras devolutas ao longo da ferrovia, contrato contestado pela população excluída. Liderados por José Maria, os sertanejos criaram “cidades santas” baseadas na fé e na igualdade, consideradas ameaça à República. O governo respondeu com uma grande operação militar; aviões foram usados pela primeira vez em um conflito no Brasil. Em 1916, os últimos redutos se renderam e foi firmado o acordo definitivo de limites entre os Estados.
Embora o Contestado tenha produzido mais documentos que a Guerra de Canudos, sua memória foi propositadamente apagada. Assim como os pinheirais, hoje reduzidos a cerca de 1% de sua cobertura original.
Roberto Xavier de Lima – Diretor de Planejamento e Inovação da Neotrópica Sustentabilidade Ambiental, Mestre em Conservação da Natureza, Biólogo e Escritor.