Quando era universitário, no início dos anos 1980, vivíamos o fim de uma ditadura que impôs projetos de grande impacto ambiental, como a Transamazônica e as hidrelétricas de Balbina, Tucuruí e Itaipu – esta última inundando o Parque Nacional de Sete Quedas.
Com a anistia de 1979, o retorno dos exilados trouxe o desejo de votar para presidente, e oxigenação às artes e ao pensamento ambiental. Em 1981, nascia a Política Nacional de Meio Ambiente e o Conama, trazendo ordem à complexa legislação ambiental. A juventude se sentia mais livre gritava com Renato Russo perguntando: “Que país é esse?”
Nós, estudantes de Biologia da PUCPR à época, criamos uma ONG ambientalista que segue atuante. Recebemos Fernando Gabeira, que trouxe do exílio as ideias do Partido Verde alemão. Surgiam no Brasil as primeiras noções modernas de educação ambiental e defesa da sociobiodiversidade.
A juventude engajou-se em lutas emblemáticas: o fim da caça às baleias e a oposição à instalação de uma usina nuclear no preservado litoral paulista. O governador Franco Montoro reagiu decretando área protegida e tombando a Serra do Mar em 1985. No ano seguinte, o Paraná fez o mesmo; eu era estagiário da Secretaria da Cultura e testemunhei esses marcos.
Logo depois, houve pressão para passar a BR-101 pela região de Guaraqueçaba, área mais conservada da Mata Atlântica. A juventude reagiu e impediu. E quando tentaram abrir uma estrada clandestina no Parque Nacional do Iguaçu, a sociedade civil novamente se mobilizou com abaixo-assinados e pressão no Congresso.
Décadas de batalhas resultaram em avanços que tornaram o Brasil referência em legislação ambiental.
Hoje, semanas após a COP 30, o Congresso protagoniza um gesto patético ao derrubar vetos essenciais do Executivo, atacando a Lei Geral do Licenciamento Ambiental e favorecendo um projeto de país reduzido a um pasto seco, sem chuva, sem polinizadores, sem povos tradicionais, com rios contaminados por mercúrio e pela mineração predatória que já destruiu Brumadinho e Mariana.
Essa legislatura entrará para a história como o pior Congresso Nacional desde a redemocratização: ignorante em temas estratégicos, oposicionista por cálculo eleitoral, raso em propostas.
Em um Estado laico, exibe pensamento medieval, misturando ideologias bélicas, fundamentalismo religioso, traços fascistas e apoio de estruturas criminosas.
Retrocedemos quarenta anos. Antes, o país pedia mudanças – e avançamos. Agora, tornamo-nos “piada no exterior, vendendo a alma dos nossos índios em um leilão”, como cantava a Legião Urbana.
Tão antigo, tão atual. A juventude deveria desligar seus celulares e ir às ruas lutar pelo direito de herdar um país melhor, movida por uma necessária empatia ambiental.
Roberto Xavier de Lima – Diretor de Planejamento e Inovação da Neotrópica Sustentabilidade Ambiental, Mestre em Conservação da Natureza, Biólogo e Escritor.