O brasileiro possui uma forte ligação emocional com nascentes, riachos e rios límpidos, mas, a cada ano, testemunhamos uma acelerada degradação ambiental em nossas doze bacias hidrográficas. Em tempo de mudanças climáticas, o monitoramento anual da SOS Mata Atlântica revela que 80% dos pontos avaliados apresentam qualidade apenas regular, indicando a necessidade de tratamento da água para diferentes usos.
Em 1982, o governo militar afogou o Parque Nacional de Sete Quedas, e desviando o Rio Paraná permitiu a formação do Lago de Itaipu e a operação da usina hidrelétrica, iniciada em 1984. No entanto, pouco se considerou à época, que os peixes dependem da piracema para a reprodução. Somente em 2002 foi inaugurado o canal da piracema, possibilitando novamente a migração de diversas espécies, entre elas o Pintado (Pseudoplatystoma corruscans), recentemente classificado pelo Ministério do Meio Ambiente como vulnerável à extinção na Bacia do Paraná. Além das barragens, a pesca predatória, o assoreamento e a poluição agravam o declínio da ictiofauna brasileira.
Nas rodovias brasileiras, outro grave problema: estima-se que cerca de 475 milhões de animais silvestres sejam atropelados anualmente devido à falta de passagens de fauna. Embora essas estruturas tenham começado a ser implantadas na década de 1990 e recebido maior impulso após 2010, com a criação do Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas, ainda são insuficientes. O primeiro viaduto vegetado exclusivo para fauna foi inaugurado apenas em 2017, no Pará, mas a conectividade entre fragmentos florestais continua muito aquém do necessário.
Nos canais de irrigação para o agronegócio, milhares de animais morrem afogados todos os anos pela ausência de rampas de escape. Espécies que vão de pequenos roedores a antas e lobos-guará escorregam nas paredes revestidas por plástico liso ao tentarem beber água ou atravessá-los. Instituições como a Associação Mineira de Defesa do Ambiente (AMDA) e o Ministério Público defendem a instalação de rampas, cercas-guia e bordas mais seguras para evitar que esses canais não se transformem em armadilhas. Nas obras federais, ao longo dos canais da transposição do Rio São Francisco, por exemplo, corredores de passagem e medidas de manejo reduziram significativamente esse impacto.
Infelizmente, continuamos correndo atrás dos prejuízos. Além da crescente fragmentação dos habitats naturais e da escassez dos chamados trampolins de fauna (stepstones) – pequenos fragmentos que funcionam como elos entre áreas maiores de vegetação – seguimos perdendo rios, peixes, aves e mamíferos sem dar a devida importância às consequências para a biodiversidade e para o nosso próprio futuro.
Roberto Xavier de Lima – Diretor de Planejamento e Inovação da Neotrópica Sustentabilidade Ambiental, Mestre em Conservação da Natureza, Biólogo e Escritor.