O presidente Lula enfrenta um dilema histórico: ser o símbolo de uma liderança global comprometida com a descarbonização na abertura da COP30, em Belém (PA), ou celebrar a licença concedida pelo Ibama à Petrobras para explorar petróleo na margem equatorial em plena Amazônia brasileira.
A licença de operação, emitida após cinco anos de embates técnicos e condicionantes ambientais rigorosas, foi liberada dias antes do vencimento do contrato com a plataforma responsável pelas perfurações, que alcançarão mais de cinco mil metros de profundidade. O Ibama afirmou ter comprovado a “robustez da estrutura de proteção ambiental” do projeto, mas o gesto político de liberar a exploração às vésperas da COP30 revela contradições no discurso ambiental do governo. Desde o início, Lula sofreu forte pressão de governadores, senadores e do Centrão. Em fevereiro, chegou a criticar publicamente o Ibama, acusando-o de “lenga-lenga” pela demora no licenciamento. A fala soou como um recado claro: o pragmatismo político e econômico poderia se sobrepor ao discurso climático.
O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, comemorou a decisão, classificando a exploração da margem equatorial como “o futuro da soberania energética nacional”.
Já a ministra Marina Silva reafirmou que o verdadeiro futuro passa pela transição energética e pela redução progressiva da dependência dos combustíveis fósseis até 2050. Dois discursos que simbolizam o embate entre o velho e o novo modelo de desenvolvimento.
A Petrobras, por sua vez, defende que novas fronteiras de exploração são essenciais para garantir segurança energética e recursos para uma “transição energética justa”. Mas não há, até o momento, qualquer plano concreto de como os lucros do petróleo seriam reinvestidos para financiar essa “transição”. Sem mecanismos de vinculação e metas claras, o discurso soa mais retórico que transformador.
É inegável que a soberania energética é vital para qualquer país, especialmente em tempos de instabilidade global. Mas ela não pode servir de justificativa para ampliar a dependência de um modelo fóssil que o próprio planeta já não suporta.
A poucos dias da COP30, quando o Brasil poderia se apresentar como protagonista de uma nova economia verde baseada nas cadeias produtivas sustentáveis da Amazônia, a decisão sobre o petróleo lança sombra sobre essa imagem.
A pergunta que fica é: quanto carbono ainda estamos dispostos a colocar na conta do país em nome do desenvolvimento? O dilema de Lula é, na verdade, o dilema do próprio Brasil — entre repetir a velha narrativa do “petróleo é nosso”, de Monteiro Lobato, ou assumir o protagonismo que o século XXI exige, pautado em inovação, transição e responsabilidade climática.
Roberto Xavier de Lima – Diretor de Planejamento e Inovação da Neotrópica Sustentabilidade Ambiental.