À medida que se industrializaram, os países desenvolvidos deslocaram para o Sul Global etapas produtivas incompatíveis com seus modelos econômicos baseados em serviços. Esse processo ocorreu com a extração mineral altamente poluente e tende a se repetir com a crescente demanda por metais raros e grandes volumes de energia destinados aos Data Centers associados ao avanço acelerado da Inteligência Artificial (IA).
Data Centers são instalações sofisticadas que abrigam servidores e equipamentos responsáveis pelo processamento, armazenamento e distribuição de dados. Esses complexos demandam enormes volumes de energia e água, competindo com o consumo de cidades inteiras. Estudos indicam que a energia usada para gerar uma única imagem por IA pode equivaler ao consumo de dezenas de lâmpadas por uma hora ou ao carregamento de um celular.
O elevado consumo energético desses complexos tecnológicos tornou-se uma preocupação global, levando empresas a buscar países com energia renovável mais barata e redes menos pressionadas. Nesse contexto, o vice-presidente Geraldo Alckmin defendeu recentemente a atração desses empreendimentos para o Nordeste, especialmente o Ceará, como estratégia de “reindustrialização e fortalecimento da economia digital”. Será?
Embora o Brasil possua uma matriz elétrica majoritariamente renovável, a principal limitação mundial para a expansão da IA é justamente a disponibilidade de energia. Assim como o agronegócio exporta água dos nossos biomas por meio de grãos, a instalação de Data Centers aqui, pode intensificar a exportação indireta da nossa energia, muitas vezes viabilizada por subsídios públicos.
Ao menos, quatro grandes projetos desse tipo já foram anunciados no país, com consumo equivalente ao de milhões de residências. Segundo informações disponíveis, em 2024, os Data Centers representaram 8,2 TWh (1,7%) do consumo nacional, tendendo até 2029, chegar a 27,3 TWh, ou 3,6% do total previsto.
Nos Estados Unidos, a concentração desses empreendimentos no estado da Califórnia, pressiona as redes elétricas. Lá, em 2023, os Data Centers consumiram 4,4% da energia do país, com projeção de alcançar 12% até 2028.
Apesar do entusiasmo com essa “oportunidade”, o Brasil enfrenta crises hídricas recorrentes, maior uso de termelétricas poluentes e os efeitos das mudanças climáticas sobre os chamados rios voadores. A atração massiva de Data Centers tende a tensionar ainda mais a matriz energética, competindo com a população por energia limpa, justamente um dos principais orgulhos do país. Há uma necessidade urgente de regular por meio de leis federais esse novo sumidouro de energia, mas me parece que nenhum político está preocupado com esse tema.
Roberto Xavier de Lima – Diretor de Planejamento e Inovação da Neotrópica Sustentabilidade Ambiental, Mestre em Conservação da Natureza, Biólogo e Escritor.