COP 30, dez anos após a morte do Rio Doce

A relação do povo Krenak com o Rio Watu (Rio Grande) é de profunda conexão espiritual e cultural, sendo vital para sua identidade e rituais, que vão muito além das atividades de subsistência, como agricultura, caça e pesca.

Para os Krenak, o Rio Watu, como denominam o Rio Doce, é um ente sagrado, um pai ou avô. Passados dez anos, os Krenak e a população ribeirinha vivem um eterno luto pelo rio, e ainda lutam pelo rio.

No dia 5 de novembro fez dez anos do rompimento da barragem de Fundão da mineradora Samarco, controlada pela Companhia Vale do Rio Doce e pela anglo-australiana BHP Billiton, em Mariana, Minas Gerais (MG).

Com o desastre, foram liberados mais de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos, causando 19 mortes, destruição ambiental, desabrigados e impactos na saúde e economia de milhões de pessoas ao longo do rio.

O crime ecológico ainda sem punição deixou uma enxurrada de rejeitos e lama com metais pesados, soterrando os distritos de Bento Rodrigues e Paracatu.

Uma contínua onda de destruição matou o rio sagrado do povo Krenak, causando impactos ambientais às populações ribeirinhas em dezenas de municípios de MG até desembocar morto, no mar no estado do Espírito Santo, após percorrer 663 km de agonia.

Dez anos se passaram e o rio continua morto. Foram 1.469 hectares de vegetação destruídos inclusive áreas de preservação permanente, e 2,5 milhões de pessoas atingidas direta ou indiretamente pelo desastre em suas vidas e suas economias, meio ambiente e ecossistema.

Há poucos dias do início da COP30 em Belém, a tragédia de Brumadinho ainda é uma ferida aberta em plena rica Região Sudeste brasileira que não pode ser esquecida.

Em 2024, a Justiça Federal absolveu a Samarco e todos os 22 réus. Devido à demora do processo, vários crimes pelos quais os réus foram denunciados já prescreveram.

Uma justiça lerda não é justiça. Um valor de 170 bilhões foi reservado para reparação dos danos causados pelo rompimento da barragem, porém esses valores se arrastam em processos que não consideram a efemeridade da vida humana.

Passados 10 anos, moradores ainda buscam por justiça. Os projetos de assentamento não levaram em consideração as organizações das populações. Mais do que um crime ambiental foi uma grave violação dos direitos humanos que ainda se perpetua.

As datas as vezes são ocultadas por outros assuntos da hora como a COP30, mas jamais esquecidos. Há dez anos, mataram o Rio Watu. O outrora doce rio dos Krenak.

 

Roberto Xavier de Lima – Diretor de Planejamento e Inovação da Neotrópica Sustentabilidade Ambiental, Mestre em Conservação da Natureza, Biólogo e Escritor.

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