Complexo de vira-lata e o nosso Soft Power

Confesso que gosto de um bom jogo de futebol. Em tempo de Copa do Mundo resolvi ler Nelson Rodrigues (1912/1980), escritor, cronista e o mais importante dramaturgo da história do teatro brasileiro. Comprei seu livro a “Pátria de chuteiras” e descobri, que foi ele, que cunhou a expressão “complexo de vira-lata”, para descrever o sentimento de inferioridade que os brasileiros sentiam diante do resto do mundo, após a derrota na Copa do Mundo de 1950 em pleno Maracanã. Infelizmente, não poderia deixar de citar o desserviço que o Congresso Nacional fez, liberando os jogos de azar conhecidos como “Bets”, que contaminaram o esporte. Assinem o abaixo assinado:  www.brasilcontrabets.com, para extirpar essa doença que endividou famílias e tomou conta do nosso futebol.

Retornando ao tema inicial. Mesmo sendo pentacampeões, sempre fomos muito críticos com o nosso time, a ponto de não percebermos que, sim, nosso futebol, assim como a nova geração de surfistas, skatistas, a cultura, a música e a nossa sociobiodiversidade, entre outros, são nossos ativos.

Não gosto de utilizar termos anglicistas, mas se trata do nosso “poder suave” (soft power), lugar onde somos bons e nos destacamos globalmente. O cientista político Joseph Nye chama esses ativos, da habilidade de um país influenciar outras nações, através de sua cultura, valores e políticas. E são nesses temas que o país se destaca.

Por exemplo: Nos anos 70, Curitiba -PR, planejou sistemas de drenagem nos seus rios, solucionando um problema que há em várias cidades brasileiras; a ocupação desordenada das margens dos rios. Mas, devido a síndrome de vira-lata, a mídia local reconhece os sucessos estrangeiros ocorridos, 50 anos depois!

Outro exemplo: possuímos um sistema de detecção de desmatamento por sensoriamento remoto que é referência mundial, que congressistas vinculados ao que há de mais atrasado, querem proibir sua utilização para manter a grilagem, o desmatamento e a ampliação da narcomilícia na Amazônia.

O Brasil é o país mais megadiverso. Deveríamos, com políticas públicas, valorizar esse ativo, envolvendo sempre as forças armadas no combate ao crime organizado, no combate a invasão de territórios indígenas e unidades de conservação.

Para melhorarmos a qualidade de vida de nossa teia social, salários dignos para professores, matriz de todas as outras profissões.

Deveríamos também, focar todos os esforços no enfrentamento do saneamento básico de nossas cidades, pois sabemos que cada recurso investido em saneamento, gera R$ 29,19 em benefícios sociais e melhorias socioeconômicas, segundo o instituto Trata Brasil e a OMS.

Para as próximas eleições, em tempo de mudanças climáticas e escassez hídrica temos que eleger políticos que valorizem o que há de melhor em nós, melhorando a qualidade de nossos docentes, cidades e rios, valorizando nossa sociobiodiversidade para deixarmos de ter esse complexo de vira-latas.

 

Roberto Xavier de Lima – Diretor de Planejamento e Inovação da Neotrópica Sustentabilidade Ambiental, Mestre em Conservação da Natureza, Biólogo e Escritor

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