Araucárias urbanas

Nessas férias, me chamou a atenção a acelerada transformação imobiliária que passa a capital paranaense.

Morador da cidade entre os meus 3 aos 37 anos, vivenciei com detalhes o desflorestamento e o adensamento dos bairros do Seminário e Batel.

Quando meus pais construíram nossa casa no ano de 1970, o vale da rua Hermes Fontes era repleto de gigantescos pinheiros e uma densa mata, que com o tempo fora convertido em ruas abertas e terrenos nobres para a construção de mansões com arquitetura sem muros, e integradas aos remanescentes florestais.

Do final da década de 60 até os tempos atuais, as famílias foram envelhecendo, e as casas foram vendidas, transformando-se em escritórios. Durante esses 50 anos, aos poucos, as casas foram descaracterizadas ou derrubadas diante às recentes modificações do ordenamento territorial, que permite construir apartamentos luxuosos de 5 a 7 andares, semelhantes aos prédios do Leblon.

Mas os pinheiros, mesmo rareando na paisagem, continuam compondo os novos cenários. Curitibandando em um trecho de onze quilômetros do bairro do Seminário ao Jardim Social, foi possível presenciar diversas árvores seculares em forma de majestosas taças.

A origem da palavra Curitiba em Guarani, significa “lugar de muitos pinheiros”. A araucária é praticamente uma “planta-dinossauro” que ainda não foi extinta, restando apenas 1% de remanescentes florestais de uma outrora cobertura de 85% em todo o Estado. Sabe-se que seu manejo em áreas urbanas requer cuidados técnicos e necessidade de aparatos que evitem quedas acidentais de seus fortes galhos e pesadas pinhas.

A presença dessa árvore, símbolo de Curitiba, na paisagem marca muito a característica da cidade. Mas, por trás desse cenário, há a necessidade de gestão de longo prazo empregando práticas de arborização urbana moderna, priorizando as espécies nativas.

Quando fui Conselheiro Municipal de Meio Ambiente da cidade, no ano 2000, me orgulhava de poder salvar alguns majestosos pinheiros da motoserra. Sem descuidar da análise de critérios técnicos, por vezes, se notava que a solicitação de abate era por mero interesse especulativo imobiliário.

Outras vezes, sim, era necessário o abate devido a aproximação da árvore com uma casa, muro, escola etc. O fato é, que as araucárias continuam sendo abatidas na cidade em espaços que poderiam permanecer.

Uma política de arborização urbana transparente, visando um planejamento repositório, deveria ser adotada para que esses exemplares, símbolos da cidade, e tão importantes para a fauna e a paisagem local, possam permanecer no referencial da cidade, não apenas desenhada no brasão da bandeira municipal.

 

Roberto Xavier de Lima – Diretor de Planejamento e Inovação da Neotrópica Sustentabilidade Ambiental, Mestre em Conservação da Natureza, Biólogo e Escritor.

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