Na Rua das Flores, em Curitiba, fotografei a estátua de Jaime Lerner (1937-2021), tendo ao fundo a Boca Maldita, onde o Lula discursava.
Lerner, como prefeito, transformou a provinciana capital do Paraná, em referência internacional de planejamento urbano, criando um sistema de transporte integrado, coleta seletiva de lixo e um sistema de unidades de conservação para a retenção das chuvas por meio de grandes lagos e áreas de transbordo – hoje conhecidas por “parque esponja”. Com suas inovações, transformou a antiga cidade-dormitório, em um polo turístico, que atualmente consegue reter o visitante por quatro dias. Nos anos 1960, era somente meio-dia.
Presenciei o El Niño transbordar os rios da cidade. Ao retornar ao Parque Barigui, (criado em 1972), depois que as águas baixaram, equipes de manutenção já trabalhavam na limpeza das pistas para que os moradores pudessem voltar a utilizá-las. É uma experiência que evidencia como planejamento, infraestrutura e áreas verdes podem contribuir para reduzir os impactos de eventos climáticos extremos.
Curitiba, evidentemente, também enfrenta desafios. Mas parte de sua identidade urbana foi construída sobre soluções que articulam mobilidade, áreas verdes, gestão de resíduos, cultura, gastronomia e lazer que fazem dela, um atrativo inovador.
É nesse ponto que encontro um possível elo entre Lerner e Lula: a importância do planejamento de longo prazo. São trajetórias políticas distintas, em épocas diferentes e com projetos próprios, mas ambos associaram à necessidade de pensar além do presente.
Na atual geopolítica global, Lula é um líder nato, admirado pelos seus pares. Quando observamos o enfraquecimento do multilateralismo e o retorno da “lei do mais forte”, o país que não se desenvolver com autonomia e sustentabilidade, ficará à mercê de impérios decadentes interessados nas nossas riquezas, nos condenando ao destino de apenas se conformar em vender comódities na agricultura e mineração, sem agregar valor à toda cadeia produtiva.
O Plano Clima 2024–2035 estabelece estratégias nacionais de adaptação e mitigação, com metas e ações para enfrentar os impactos climáticos.
A Agenda 2030 da ONU coloca justamente essa integração como desafio: desenvolvimento econômico, redução das desigualdades, cidades sustentáveis, proteção da biodiversidade e enfrentamento das mudanças climáticas precisam caminhar juntos.
Lerner mostrou, em escala urbana, que planejamento pode antecipar problemas e melhorar a qualidade de vida.
Lula, em escala nacional, tem apresentado políticas e compromissos que procuram articular desenvolvimento, inclusão social, sustentabilidade e transição climática.
Roberto Xavier de Lima – Diretor de Planejamento e Inovação da Neotrópica Sustentabilidade Ambiental, Mestre em Conservação da Natureza, Biólogo e Escritor.