A silenciosa revolução das feiras literárias

Em companhia de escritores como Mia Couto, Miriam Leitão, Jamil Chade e Bruna Lombardi, estive na 4ª Feira Literária Internacional de Paracatu (MG) – Fliparacatu, para lançar meu livro Haicais Andarilhos, pela Neotrópica Editora.

Esta edição prestou homenagem a dois grandes nomes do pensamento brasileiro: João Guimarães Rosa, pelos 70 anos da publicação de “Grande Sertão: Veredas”, e Milton Santos, no centenário de seu nascimento. Foram cinco dias que movimentaram o centro histórico da cidade, fundada em 1798.

Alunos da rede municipal, escritores, jornalistas, artistas, intelectuais e leitores se alternaram para ouvir os 39 temas apresentados, sempre com o auditório principal da Fliparacatu lotado, com capacidade para até 500 participantes.

Uma lenta e silenciosa revolução está acontecendo no Brasil no segmento da literatura. O Ministério da Cultura registrou, em 2026, 555 feiras literárias no país, responsáveis por movimentar o mercado literário, a cultura, o turismo e o comércio em geral.

Além de contribuírem para a formação de novos leitores e consumidores de livros, as feiras literárias exercem impacto significativo na economia, atuando como um dos fatores mais dinâmicos da Economia Criativa, que representa 3,59% do PIB brasileiro, tendendo a crescer.

A cultura, a música e a literatura formam o tripé do “poder suave” de um país. Um leitor aprende a opinar e a refletir, tornando-se menos suscetível à manipulação por teorias conspiratórias e falsos mentores.

Segundo a 6ª edição da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, a média de leitura no país é de 3,96 livros por pessoa ao ano. Ainda estamos atrás de nossos vizinhos, que apresentam médias de 6,5 livros por ano no Uruguai e de 5,4 no Chile e na Argentina. Mas seguimos a travessia.

Por falar em travessia, a 4ª Fliparacatu reuniu o escritor moçambicano Mia Couto e a jornalista Miriam Leitão, com mediação de Jamil Chade, para debater os 70 anos de “Grande Sertão: Veredas”.

O livro, que se inicia com o neologismo “nonada” e termina com a palavra “travessia”, parece refletir esse crescimento das feiras literárias no país. Como se fosse a jornada do brasileiro ávido por aprender sobre meio ambiente, mudanças climáticas, racismo, gênero, misoginia, entre tantos outros temas que a leitura proporciona.

Se acelerássemos a vontade de ler, colocando em prática um plano de educação com orçamento robusto, boas escolas públicas e professores remunerados em nível equivalente ao dos juízes, “nonada” veríamos um salto no envolvimento e no desenvolvimento do país.

 

Roberto Xavier de Lima – Diretor de Planejamento e Inovação da Neotrópica Sustentabilidade Ambiental, Mestre em Conservação da Natureza, Biólogo e Escritor.

Compartilhe:

Ir para o conteúdo