No Dia dos Pais, participei com meu filho de um mutirão com amigos para o feitio de pamonhas “orgânicas”. O milho plantado e colhido era de sementes de origem boliviana, com belos grãos coloridos comprovando a diversidade e a variedades não padronizadas pela indústria genética.
Quem já participou de um mutirão sabe o quanto é divertida e valiosa a troca de experiências e habilidades em uma cadeia produtiva.
Fazer pamonha é uma trabalheira. Tudo começa com a colheita, a separação e o cozimento das folhas, – que se transformam em embalagens naturais. Depois, retiram-se os grãos das espigas para triturá-los com leite e formar uma pasta. Segue-se o preenchimento da palha do milho em forma de pacotes cozidos com a massa da pamonha, levando-se ao forno a lenha por quase uma hora. Fecha-se o ciclo com um brinde celebrando o intercâmbio de “acentos”, sotaques e culturas e servindo o alimento ancestral com café. O primo boliviano do anfitrião, ao brindar o sucesso da empreitada, pingou o primeiro gole no chão homenageando a “Pachamama”.
— “Sempre que comemoramos algo, lembramos primeiro da nossa Pachamama”, disse. Para os bolivianos e os povos andinos, “pacha”, nas línguas aimará e quéchua, significa mundo, tempo ou universo; “mama” significa mãe. Portanto, Pachamama é a Mãe-Terra, símbolo da natureza, da vida e da fertilidade. Nosso encontro coincidiu com o mês de agosto, em que os bolivianos realizam rituais de agradecimento e oferendas, pedindo saúde, proteção e boas colheitas à Mãe-Terra.
O dia foi em homenagem aos pais, mas, sem as mulheres, não existiríamos. Imaginei, então, um planeta feminino: um mundo liderado pelas mulheres, depois de milênios de belicosidade sob o comando dos homens, como bem ilustrado no díptico “Guerra e Paz”, de Cândido Portinari (1903–1962), instalado na sede da ONU, em Nova York, desde 1957.
A população feminina é maioria no Brasil (51,5%), mas ocupam apenas 18% das cadeiras do Congresso Nacional. Representam pouco mais de 18% dos governos estaduais e comandam cerca de 13% das prefeituras. Qual a importância desses números? Primeiro: metade das cadeiras eletivas e dos cargos de chefia deveria pertencer às mulheres. Segundo: é necessário garantir igualdade salarial entre os gêneros e ampliar o acesso das mulheres a cargos políticos e de direção.
Nas próximas eleições, podemos corrigir essa distorção, ampliando a representação feminina e valorizando candidatas comprometidas com a ciência, as vacinas e a igualdade salarial.
Um brinde à Pachamama é uma forma de pensar o planeta feminino e sustentável. Afinal, sem as mulheres, nós, homens, não comemoraríamos o Dia dos Pais — e entraríamos em extinção.
Roberto Xavier de Lima – Diretor de Planejamento e Inovação da Neotrópica Sustentabilidade Ambiental, Mestre em Conservação da Natureza, Biólogo e Escritor.