Certa vez, um amigo diplomata, em tom de brincadeira, disse que criaria uma ONG chamada “Save the Hippies”, pois considerava que esse grupo, descobridor de lugares paradisíacos, sempre era expulso pela especulação imobiliária, que transforma sem qualquer planejamento, as paisagens naturais.
Nesta semana, após 40 anos, revisitei, um desses paraísos: a Área de Proteção Ambiental (APA) da Baleia-Franca – SC. Nos arredores do Morro de Itapirubá, deparei-me com um crescimento desordenado e carcaças de prédios inacabados que comprometem a paisagem. Quando estive ali em busca de ondas perfeitas, o lugar era praticamente intocado. Faltavam apenas as baleias, ainda caçadas na época. Somente em 1987, com a Lei Federal nº 7.643, a caça foi proibida, o que permitiu o retorno desses animais às águas geladas do litoral catarinense para reproduzir-se e criar seus filhotes.
Para proteger a espécie, foi criada, em 2000, a APA da Baleia-Franca, no litoral centro-sul de Santa Catarina, com 156 mil hectares. Seu objetivo é conservar as águas costeiras utilizadas pela baleia-franca-austral (Eubalaena australis), na sua reprodução e amamentação.
Se você ainda não conhece essa região, recomendo a visita. Destaco a Guarda do Embaú, reconhecida como Reserva Mundial de Surf pela organização “Save The Waves Coalition”. O título valoriza a qualidade das ondas, a conservação dos ecossistemas e o forte engajamento da comunidade na preservação ambiental, impulsionando um turismo sustentável voltado ao surfe, à vela, às trilhas, à gastronomia e à observação de baleias.
Entretanto, todos esses benefícios correm risco. Recentemente, o Congresso aprovou, em regime de urgência, a tramitação do Projeto de Lei nº 849/2025, que propõe excluir toda a porção terrestre da APA, reduzindo em mais de 30 mil hectares a proteção de dunas, restingas, manguezais e lagoas.
Segundo críticos da proposta, a medida favorece grandes loteamentos imobiliários e pode reproduzir o modelo de ocupação que verticalizou o Balneário Camboriú. A faixa terrestre da APA funciona como uma barreira ecológica; sua descaracterização poderá comprometer a reprodução da espécie e a integridade dos ecossistemas costeiros.
Também não procede o argumento de que a APA impede o desenvolvimento econômico. Os municípios que integram a área protegida já se beneficiam de suas paisagens, da sociobiodiversidade e da gastronomia, sustentando uma economia baseada no turismo de natureza.
A sociedade precisa dizer não, pressionando pela manutenção dessas paisagens naturais.
Participe; até quando interesses imobiliários continuarão prevalecendo sobre a conservação ambiental e uma economia verdadeiramente sustentável?
Roberto Xavier de Lima – Diretor de Planejamento e Inovação da Neotrópica Sustentabilidade Ambiental, Mestre em Conservação da Natureza, Biólogo e Escritor.