Após uma vida dedicada à produção intelectual, com mais de 70 livros publicados, o filósofo Edgar Morin (1921-2026) nos deixou. Sua principal contribuição foi a Teoria do Pensamento Complexo, que propõe uma forma de compreender a realidade a partir da interconexão dos saberes.
Morin criticava a fragmentação do conhecimento promovida pela ciência tradicional. Para ele, os fenômenos não podem ser entendidos isoladamente, mas dentro de um contexto amplo, em que tudo se relaciona.
Durante a 38ª Reunião da SBPC, realizada em Curitiba, em 1986, apresentei uma ementa para que a Educação Ambiental (EA), fosse trabalhada de forma transversal nas disciplinas escolares. Na época, eu sequer conhecia a formulação teórica de Morin sobre a transversalidade do conhecimento. Somente em 1999, com a Lei nº 9.795, foi instituída a Política Nacional de EA. Coincidentemente, naquele mesmo ano a Unesco publicou “Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro”, que sintetiza os princípios fundamentais de seu pensamento. Entre eles estão: superar a ilusão da verdade absoluta; promover um ensino integrado; reconhecer a complexidade do ser humano em suas dimensões biológica, cultural e social; compreender que compartilhamos um destino planetário comum; lidar com as incertezas do futuro; fortalecer a empatia e o respeito entre culturas; e estimular a responsabilidade individual na preservação da vida.
Quando trabalhei no MMA, entre 2003 e 2008, – período em que Marina Silva ocupou pela primeira vez o cargo de ministra, admirava os discursos dela e sua transversalidade no planejamento ambiental. Nesta semana de despedida do autor, compreendi melhor o sentimento expresso por ela ao se definir como “aluna, irmã mais nova e filha intelectual do pensador”, afirmando que continuará seguindo os valores e ideais semeados pelo filósofo.
Reencontrei em minha biblioteca o livro: “A Cabeça Bem-Feita: Repensar a Reforma, Reformar o Pensamento” de Morin. Logo nas primeiras páginas havia uma passagem destacada a lápis: “Na escola primária nos ensinam a isolar os objetos, separar as disciplinas e dissociar os problemas, em vez de reunir e integrar”.
A reflexão permanece atual. Se extrapolarmos para o universo das redes sociais, veremos que os algoritmos estimulam divisões, polarizações, “fake News” e conteúdos superficiais elevados à condição de verdades absolutas. Esse processo nos afasta da construção de uma sociedade mais justa, equilibrada e sustentável.
Morin defendia exatamente o contrário: a integração dos saberes, o diálogo, a compreensão da complexidade e a responsabilidade compartilhada. Sigamos, portanto, como multiplicadores desse pensamento holístico e transversal.
Roberto Xavier de Lima – Diretor de Planejamento e Inovação da Neotrópica Sustentabilidade Ambiental, Mestre em Conservação da Natureza, Biólogo e Escritor.