A Armadilha de Tucídides

 

Confesso que pouco sabia sobre Tucídides, historiador e general grego que analisou a guerra entre Atenas e Esparta, ocorrida entre 431 a.C. e 404 a.C. Foi dele a frase: “A ascensão de Atenas e o medo que isso provocou em Esparta tornaram a guerra inevitável.”

Recentemente, o presidente chinês Xi Jinping citou a chamada “Armadilha de Tucídides” ao tratar das relações entre China e Estados Unidos. O conceito remete ao temor histórico entre uma potência em ascensão e outra em declínio. A proposta chinesa seria evitar conflitos por meio da cooperação econômica e do fortalecimento do comércio global, e não pela guerra. Não se sabe se essa mensagem será ouvida.

Mas o que isso tem a ver com o Brasil e suas questões políticas, econômicas e ambientais? Tudo. Enquanto uma civilização milenar projeta sua ascensão global com planejamento estratégico, o Brasil, com pouco mais de 200 anos de independência, precisa definir como pretende preservar sua soberania e relevância nesse novo cenário geopolítico.

Não será apenas exportando comódities, que alcançaremos posição de destaque entre as grandes nações. Embora o agronegócio e a mineração sejam fundamentais para a balança comercial, é indispensável agregar valor às cadeias produtivas nacionais.

No caso dos minerais raros, por exemplo, o Brasil possui cerca de 23% das reservas globais. Não podemos repetir erros históricos cometidos com o ferro, manganês e soja, exportados majoritariamente sem domínio tecnológico e baixo valor agregado. Também é essencial que a exploração desses recursos estratégicos siga rigorosamente as normas ambientais, pois a atividade gera grandes volumes de rejeitos para pequena quantidade de material aproveitado.

Em tempos eleitorais, é necessário discutir temas estruturantes e de longo prazo para garantir independência econômica e tecnológica ao país. Nesse contexto, destaca-se a Nova Indústria Brasil, política lançada em 2024 para modernizar e reindustrializar o país até 2033, prevendo mais de R$ 300 bilhões em financiamentos voltados à inovação, sustentabilidade e soberania nacional.

Para que iniciativas assim prosperem, é fundamental eleger representantes comprometidos com projetos de Estado e não apenas de governo. Políticas estratégicas não podem ser interrompidas a cada mudança de gestão.

Uma nova industrialização, aliada ao fortalecimento da educação, da ciência, das universidades públicas e da sustentabilidade, pode posicionar o Brasil como um soft power em áreas como meio ambiente, energia limpa e tecnologia.

O retorno do planejamento de longo prazo é estratégico para mantermos independência e protagonismo em um mundo cada vez mais polarizado.

 

Roberto Xavier de Lima – Diretor de Planejamento e Inovação da Neotrópica Sustentabilidade Ambiental, Mestre em Conservação da Natureza, Biólogo e Escritor.

 

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