A convite do Departamento de Estado dos Estados Unidos, estive na Ilha Ellis, localizada em frente à Estátua da Liberdade na cidade de Nova Iorque, em 2007, para um intercâmbio do “International Visitor Program”. À época, me chamou a atenção este infográfico sobre o fluxo da escravidão negra para as Américas. Entre 1892 e 1954, a Ilha Ellis funcionou como a principal porta de entrada de imigrantes nos EUA. Atualmente o seu edifício principal é um museu dedicado à história da imigração. Tão contraditório nos dias de hoje, onde os imigrantes agora são perseguidos e não desejados.
O infográfico destaca o fluxo de tráfico humano transcontinental da diáspora africana, financiada pelas maiores economias pré-industriais da época. No dia 25 de março a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou resolução de reparação Internacional em memória das vítimas da escravidão africana, reconhecendo como: “o mais grave crime contra a humanidade”.
Foram 123 aprovações, 52 abstenções, (incluindo Reino Unido, Portugal, Espanha entre as nações da União Europeia). Apenas três nações não ratificaram o marco histórico: Estados Unidos, Israel e Argentina.
Falta, entretanto, para os Estados Unidos e Europa, – sobretudo Portugal, Espanha, Inglaterra, França e Holanda fazerem o “Mea culpa” civilizatório com pedido de desculpas, por tamanho genocídio e tráfico de almas durante mais de 350 anos.
Em 2000, o então presidente alemão, Johannes Rau, pediu perdão solenemente no Parlamento israelense pelo extermínio de seis milhões de judeus, em um discurso histórico. E sobre os escravizados negros, quando virá essa desculpa europeia?
O antropólogo Darcy Ribeiro estimou, no livro O Povo Brasileiro, que cerca de cinco milhões de africanos foram trazidos à força para o Brasil. Laurentino Gomes, em seu livro Escravidão, cita a perda de até 22% de escravizados durante a diáspora. O livro da escritora Ana Maria Gonçalves, Um Defeito de Cor, apresenta detalhes horríveis, como se deu a travessia transoceânica em condições não humanas.
É claro, que houve reinados africanos que também lucraram com a venda de adversários, mas os impérios europeus devem às suas colônias americanas, o enriquecimento pelas subtrações dos minérios como prata e ouro, que alavancaram a protoindustrialização de seus países por meio do desgaste de pretos e o extermínio de povos ancestrais.
A cultura negra moldou as artes, religião, música, esportes e culinária das Américas e do mundo em geral. A história não retrocede, mas um pedido de perdão ainda é esperado das nações que se abstiveram ou votaram contra, e que se enriqueceram às custas das almas africadas roubadas de seus lugares de origem.
Roberto Xavier de Lima – Diretor de Planejamento e Inovação da Neotrópica Sustentabilidade Ambiental, Mestre em Conservação da Natureza, Biólogo e Escritor.