Não sou apreciador do futebol americano, e confesso que desconhecia o cantor Bad Bunny, que durante o intervalo do jogo da liga do Super Bowl fez uma crítica apresentação sobre a atual política de migração estadunidense demonstrando como seus cidadãos desconhecem a geografia do próprio continente.
O cantor representando a ascensão da cultura latino-americana no contexto global, nominou um a um, os países que compõem o continente para uma audiência de aproximadamente 135 milhões de telespectadores. Foi possível assistir na sua apresentação, latinidades tropicais, água de coco e plantações de cana-de-açúcar.
Coincidentemente estou lendo o livro do escritor uruguaio, Eduardo Galeano (1940-2015), de 1971 “As veias abertas da América Latina, que por ser tão atual, – embora passados mais de 50 anos de sua escrita, recomendo. O autor narra os diversos ciclos de saques e extermínios com que os povos do continente passaram a partir da invasão dos europeus.
O livro relata por exemplo, como que a cultura da cana-de-açúcar, introduzida no novo continente, contribuiu para a destruição de impérios autóctones e florestas originais, convertendo-as em grandes monoculturas. Segundo Galeano, foi o próprio Colombo, em sua segunda viagem, quem trouxe mudas da gramínea e as replicou-as na ilha Hispaniola, hoje dividida entre dois países: o Haiti e a República Dominicana. A cana esteve envolvida com a tríade mercantilista responsável pela introdução de quase 10 milhões de escravizados africanos para trabalhar nas lavouras. O açúcar produzido enriquecia os impérios europeus, que reabasteciam com novos navios a compra de mais escravos, em um ciclo de séculos que se reproduziu também com o ouro e a prata das colônias.
As civilizações Asteca, Maia, Inca e os índios da costa brasileira com a abertura das florestas do nordeste para o monocultivo do açúcar foram massacrados. Outros ciclos exploratórios como a borracha na Amazônia, o café, a banana, os minérios e o petróleo contribuíram para a exploração dos países pobres dependentes dessas monoculturas.
Durante séculos, para manter esses países e seus povos, submetidos ao interesse das grandes corporações foram cometidos golpes de estado, derrubada de governos, invasões e expropriações.
Quando o artista porto-riquenho, em sua performática apresentação nominou para os estadunidenses que América é um continente do qual eles apenas fazem parte, ressignificou o que o resto do continente já sabia. Somos todos da América e necessitamos desse multilateralismo para, inclusive encontrar processos de melhores trocas e restauração dos nossos biomas destruídos.
Sim, eu sei que entre as partes, seguimos desunidos e que esse assunto não importa para metade do público da grande final.
Roberto Xavier de Lima
Diretor de Planejamento e Inovação – Neotrópica Sustentabilidade Ambiental