Ciência e multilateralismo ambiental

Quando jovem participei do Fórum Global no Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro em 1992, complementar a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento – Rio 92.

Representava uma ONG ambientalista, e estava feliz de conhecer e dialogar com brasileiros e gente de todas as partes do mundo. Vi passar à minha frente, personalidades como Jacques Cousteau, Raoni, Sting, entre um universo de povos representados naquele espaço que se consolidaria nos próximos encontros da ONU, como a Zona Verde nas Conferências sobre Mudança do Clima, tornando-se parte oficial do evento.

Passados 33 anos de atividades na área ambiental, vejo avanços e retrocessos nas políticas globais no atual cenário da COP30. Entretanto, mesmo antes da conclusão dos trabalhos diplomáticos, um aspecto positivo já se destaca: o fortalecimento do multilateralismo.

Diferente do protagonismo de Al Gore, vice-presidente dos EEUU em 1992, nota-se a ausência oficial do segundo maior poluidor do planeta das deliberações de Belém. Entretanto, como na biologia, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, presente, pleiteia o nicho deixado vazio por Trump.

É evidente que a ciência e a sociedade civil engajada retomaram o protagonismo essencial no enfrentamento e na mitigação dos eventos climáticos extremos. Porém, o cenário amazônico revela algumas contradições que precisam entrar no foco de um governo comprometido com um modelo de economia com base nos ativos da nossa sociobiodiversidade.

É paradoxal que Belém, despeje mais de 80% de seu esgoto sem tratamento nos rios e igarapés — realidade que se repete em outras capitais brasileiras, em graus variados.

Outro fator crítico: o avanço do crime organizado que se consolidou na região, desestruturando o rico modo de vida sociobiodiverso de outrora.

Em 2003, quando acompanhei in loco a elaboração do Plano de Uso Público do Parque Nacional da Serra do Divisor – AC, fomos escoltados pela equipe de selva do Exército devido ao risco imposto por traficantes no Rio Juruá. Hoje, a presença do crime organizado se intensificou, afastando ribeirinhos de suas colocações à beira dos rios.

Garimpos ilegais, poluição por mercúrio, extração clandestina de madeira, invasões de terras indígenas e crimes contra lideranças e ambientalistas continuam sendo pauta diária da imprensa.

Ouvir a cantora Fafá de Belém, em entrevista na COP30, falar de um novo protagonismo para os povos amazônidas é um acalanto de esperança e valorização dessa estima. Porém, são urgentes políticas públicas que integrem conservação das florestas, segurança regional, saneamento básico e fortalecimento das cadeias produtivas sustentáveis. A conferir.

 

Roberto Xavier de Lima – Diretor de Planejamento e Inovação da Neotrópica Sustentabilidade Ambiental, Mestre em Conservação da Natureza, Biólogo e Escritor.

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